quarta-feira, 12 de março de 2008

Um comentário bem interessante!

Olá pessoas!
Recebi um comentário bem interessante no último post, e vou colocá-lo aqui na íntegra e respondê-lo. Não sei se por falta de familiaridade minha com os blogs, ou por algum outro motivo, não consegui identificar quem fez o comentário (nos próximos, identifiquem-se, por favor!). Mesmo assim, espero que quem fez o comentário não se importe de eu publicá-lo como post e respondê-lo aqui.
O comentário é:

====================================================================
Êê. Um blog!

Já que eu apareci de curiosa, vou aproveitar pra perguntar algo q pensei na aula. : )
Por exemplo, aqueles exemplos da maçã e do professor de física[ duas maçãs na mesa/ dois professores de física, se não me engano]. Então, se eu tivesse um chocolate Hershey's ou qualquer outro que seja considerado bom [eu quero dizer de marca] e um outro que fosse "sem marca". Aí falo pra uma pessoa pegar O chocolate. Mas isso não faz com que ela me traga os dois [por existirem dois] ou q me pergunte qual, se ela tiver entendido que eu quero,digamos, o bom, o melhor, ou qualquer coisa do gênero. [isto é, se eu acreditar q ela me entendeu de algum modo ou q ela seja viciada em chocolate e partilhe da mesma opinião]. Então, dá pra fazer uma análise dessas ou seria estritamente ligado ao modo que se pronunciasse o 'O'?

Escrevi um monte..
até!

====================================================================

A questão levantada é realmente ótima!

Ora, se tem só dois chocalates na mesa, e os falantes, João e Maria, reconhecem que o chocolate A é bom e o B é ruim, se João diz para Maria:

- Pega o chocolate pra mim!

É bem provável que a Maria não vai ter dúvida: vai pegar o chocolate bom pro João!
O problema é que tal situação entra em conflito com o que vimos em aula, ou seja, que usar o artigo definido singular (o, a) traz consigo a pressuposição de que existe um e apenas um referente possível, e que uma sentença só feliz se suas pressuposições forem preenchidas ou satisfeitas. Assim, uma descrição definida, que nada mais é do que o artigo definido combinado com um nome comum, só será boa num contexto em que a pressuposição que ela carrega, i.e., ter um e apenas um referente no contexto em que a descrição definida é proferida, for satisfeita, ser verdadeira.
No nosso contexto, há dois chocolates na mesa... como então consigo entender a descrição definida? O pedido de João deveria causar estranheza ou então a pergunta "Qual deles?".
Vamos ignorar o caso, por ora, em que há a estranheza e a pergunta por parte de Maria "Qual deles?"; vamos supor que a Maria pegue o chocolate (o bom, é claro!) para João. Como entender o que acontece aqui?

Pode ser que a semântica que atribuímos à descrição definida esteja errada, e que a pressuposição de univocidade (ter um e apenas um referente no contexto em que é pronunciada) seja muito forte.
Porém, antes de passarmos a essa alternativa radical, procuremos entender melhor o que se passa e como funciona essa tal pressuposição.
Antes de mais nada, precisamos estar claros sobre o que se entende por contexto e o que se entende por único referente possível.
Por ora, o contexto deve ser entendido como: aquilo que envolve perceptualmente os participantes de uma conversa, ou seja, o que eles podem ver, ouvir, sentir e que sabem que todos estão vendo, ouvindo, sentido. O contexto também é formado por aquilo que os participantes de uma conversa sabem que os outros participantes sabem. Parece complicado, mas não é.
Um exemplo: na próxima aula, eu entro na sala e pergunto:

- Fizeram os exercícios?

Ora, eu poderia me referir a quaisquer exercícios possíveis, não é? Mas, como eu sei que você sabem que é dia de entregar exercícios, e quais eles são, ao usar a descrição definida plural "os exercícios" obviamente eu me refiro aos exercícios que vocês tem que entregar (e que vocês sabem que tem que entregar, e eu sei disso).

Essa consideração já é uma pista para o que devemos entender por (único) referente possível. Ser o único referente possível pode significar simplesmente aquele que se destaca num contexto. Se tem duas crianças vestidas iguais, e uma delas se levanta e vem pra perto de mim, se eu disser:

- Eu gosto dela!

Vocês sabem obviamente que eu estou falando da criança que levantou, quem vem pra perto de mim e que, portanto, está saliente, destacada no contexto.
Mas a saliência não precisa ser necessariamente desperta pelo contexto perceptual; ela pode ser também dada por informações compartilhadas. No nosso exemplo do chocolate, se Maria sabe que João gosta do chocolate bom, e sabe que ele não pediria para ela pegar o chocolate ruim, que ele não gosta. Saber o gosto do João por chococaltes, nesse caso, pode funcionar como um restritor de referentes possíveis - só valem os chocolates que o João gosta. Se for assim, o pedido de João pode ser interpretado por Maria como:

- Pega o chocolate que é bom / o chocolate que eu gosto pra mim!

Assim, dada essa interpretação que Maria pode atribuir ao pedido original de João, que era "Pega o chocolate pra mim!", temos uma outra descrição definida possível, "o chocolate que é bom" ou "o chocolate que eu gosto", e qualquer uma delas tem apenas um referente possível, que é o chocolate A.
Isso levanta a questão: não será toda e qualquer descrição definida uma forma contraída de uma descrição definida mais pormenorizada?
Exemplo: alguém, na aula de semântica, diz para um outro aluno interessado no material do curso:

- O livro é legal!

Ora, claramente a descrição definida "o livro" está por algo como "o livro que o professor usa/adota, etc". De onde vem esse "enriquecimento" da descrição definida? Essa é uma questão em aberto, que já é alvo de inúmeras tentivas de resposta. O que sabemos é que esse tal "enriquecimento" claramente não invalida a idéia da pressuposição, pois justamente ajuda a explicitá-la.

Antes de terminar, duas observações:
1) nem todos concordam que há uma pressuposição ligada às descrições definidas; para alguns, a tal pressuposição de univocidade está na forma lógica dos artigos ou das descrições definidas;
2) como dissemos, apesar de quase todos concordarem que há algum tipo de "enriquecimento" na interpretação das descrições definidas, não há um consenso sobre como ele funciona.

Espero que tenha ajudado um pouco.

Por favor, postem mais dúvidas e comentários!

4 comentários:

Natália disse...

Comentário importantíssimo: eu acho que com taaantos exercícios e taaantos textos, uma prova é totalmente desnecessária! haha :)

Muito legal o blog, Renato.

Até a próxima aula.
Natália Bonin.

Renato Basso disse...

Oi Natália! Tudo bom?

Obrigado pelo comentário e pelo elogio!

Você tem razão... mas, no fim das contas, a depender de como forem os exercícios, a prova não vai ser nada mais do que alguns exercícios selecionados. Quem sabe vocês até não levam pra casa pra resolver?

Até!

brãbous disse...

Yeeeeeeeeeeee!
Minha dúvida surgiu no blog..hohoho

Ah é. Eu, Bruna, fui a responsável pela questão do chocolate.[não sei pq não aparece o nome direito qd se faz o comentário, provavelmente pq pedem a ID do gmail]

Renato, ajudou bastante respondendo minha dúvida. A questão do referente, da informação compartilhada e do "enriquecimento" é realmente legal!
Por que se for parar pra pensar é maluco como conseguimos "entender" o que alguém diz, coisas q estão subentendidas [se é q se pode falar assim].E nesse caso a relação com a pragmática está aparente, certo? [ainda to no começo do texto dos Primórdios].

Eu queria aproveitar pra falar q os exercícios do capítulo 4 estão me levando a um grau de loucura muito alto.

Obrigada,

Bruna

Renato Basso disse...

Oi Bruna! Tudo bom?

Ah-ha agora sei quem foi a criminosa pelo comentário que levou a escrever páginas e páginas! heheh Muito obrigado! Fiquei bem feliz de ver que consegui despertar a sua curiosidade semântica!
De fato, as coisas mais interessantes do estudo do significado são aquelas que tem a ver com como conseguimos preencher as tantas informações "subentendidas". Você pode encontrar muitos trabalhos legais sobre isso, e tem um quantidade imensa de questões a serem respondidas. E, como você disse, a relação com a pragmática e o seu papel aqui é fundamental.

Não fique muito maluca com os exercícios do cap. 4 não, só um pouquinho... muito nunca vale a pena! hehehe
Leve as dúvidas pra aula e a gente faz lá os exercícios.

Até amanhã!